Máscaras de altitude. Verdade ou mito?

Máscaras de altitude. Verdade ou mito?

Propósito: melhorar o teu rendimento desportivo, utilizando uma simples máscara que simula o treino em condições de altitude. Será possível?
Segundo as empresas que comercializam estes dispositivos, a utilização da máscara possibilita simular o treino em altitude e desenvolver adaptações específicas a este tipo de estímulo, melhorando o rendimento desportivo.
A máscara é constituída por válvulas que oferecem resistência à passagem do ar inspirado e expirado, ou seja, o indivíduo tem “mais dificuldade em respirar”.

Treino em altitude sem estar em altitude?

A pressão barométrica (ou atmosférica)1 ao nível do mar é aproximadamente 760 mmHg. Independentemente da pressão barométrica (e da altitude), o ar é sempre constituído pela mesma % de moléculas de oxigénio: 20,93%. Assim, a pressão parcial de oxigénio (PO2)2 no ar atmosférico ao nível do mar é 159mmHg (760mmHg x 0,2093=159mmHg). À medida que subimos em altitude, o ar vai sendo cada vez menos denso, fazendo com que diminua a pressão barométrica (ambiente hipobárico) e a PO2 do ar atmosférico (hipóxia ambiente). Por exemplo, a uma altitude de 4300m, a pressão barométrica é aproximadamente 430 mmHg e a PO2 90 mmHg. O baixo PO2 no ar atmosférico em altitude tem impacto fisiológico no rendimento desportivo pois promove a diminuição da PO2 nos alvéolos, no sangue e nos tecidos ativos (diminuição do VO2máx). Apesar da deterioração de diversas variáveis fisiológicas do atleta, a hipóxia em altitude promove adaptações a longo prazo, tais como o aumento dos glóbulos vermelhos e da concentração de hemoglobina, possibilitando uma maior eficiência na capacidade de transporte e entrega de oxigénio aos tecidos.[1]

Apesar da possibilidade destas máscaras serem utilizadas no treino dos músculos respiratórios, não existem estudos fidedignos que comprovem benefícios e segurança na sua utilização.

Atualmente, existem tendas e câmaras hipobáricas/normobáricas que simulam as condições de hipóxia que se vive em altitude[2]. No entanto, as máscaras não simulam estas condições. Ao treinar com máscara ao nível do mar, o indivíduo estará a inspirar ar com 20,93% de oxigénio a uma pressão barométrica de 760mmHg, tal como um atleta que não utilize máscara. Apesar da ventilação estar dificultada devido à resistência proporcionada pelas válvulas existentes na máscara, a PO2 do ar atmosférico mantém-se inalterada (159mmHg). Não existindo um ambiente de hipóxia, as adaptações mencionadas anteriormente não ocorrem.

A fadiga dos músculos respiratórios pode limitar o rendimento desportivo em indivíduos saudáveis.

Então existe alguma vantagem na utilização destas máscaras?

As resistências da máscara diminuem o fluxo de ar inspirado e expirado, obrigando a um maior trabalho por parte dos músculos respiratórios. Assim, a máscara poderá funcionar como um dispositivo que treina os músculos respiratórios. A fadiga dos músculos respiratórios pode limitar o rendimento desportivo em indivíduos saudáveis. Em exercícios com intensidade superior a 80% do VO2máx, a fadiga dos músculos respiratórios (ex. diafragma), apesar de não comprometer a ventilação alveolar, poderá desencadear um reflexo simpático que origina uma vasoconstrição e diminuição do fluxo sanguíneo aos músculos ativos dos membros[3,4].
 O treino específico dos músculos respiratórios pode aumentar a força e a endurance destes mesmos músculos em diferentes grupos de atletas[5], com excepção para os nadadores e mergulhadores[6]; e diminuir a fadiga dos músculos respiratórios[7,8]. Diversos estudos demonstram os benefícios do treino dos músculos respiratórios na melhoria do rendimento desportivo em atletas de desportos de endurance[6,9]. Apesar da possibilidade destas máscaras serem utilizadas no treino dos músculos respiratórios, não existem estudos fidedignos que comprovem benefícios e segurança na sua utilização. Existe apenas uma certeza: o nome comercial das máscaras está errado.

1Pressão exercida pela mistura de gases que constitui o ar atmosférico.
2Pressão exercida pelo oxigénio numa mistura de gases.

Licenciado em Ciências do Desporto. Preparador Físico no Centro de Alto Rendimento do Jamor e técnico do Programa Nacional de Marcha e Corrida. Considera o desporto a sua filosofia de vida.